É por dentro que as coisas são

Há uns meses estava a preparar uma atividade para adolescentes quando tropecei numa frase de um poeta chamado Raul Brandão que dizia “é por dentro que as coisas são”. É uma frase de uma profundidade incrível, mas na altura acabei por optar por trabalhar uma outra frase qualquer e nunca mais pensei no assunto. Até este domingo.

Passei este dia de domingo em retiro, na casa de Palmela das Escravas. A proposta era passar um dia em silêncio, com pistas de meditação para “arrumar as ideias” e tempo de oração pessoal. Fórmula simples e eficaz. Casa cheia.

As pistas eram naturalmente centradas num tema quaresmal: “fazer-me pobre” para “enriquecer os outros com a minha pobreza”. Vários momentos, várias pistas e várias dicotomias (por exemplo, Marta vs Maria, Fariseu vs Publicano e os Ricos vs Viúva) para nos ajudar a compreender as nossas escolhas e a apontar o caminho.

No meio de tantas pistas e ideias, uma delas chamou-me à atenção: “optar pelo essencial”. S. Inácio dizia que é preciso ter atenção à “vida não concentrada no essencial” porque é “preciso saborear as coisas por dentro”!

Saborear as coisas por dentro… sinto que de alguma forma esta ideia foi amadurecendo em mim porque a associei logo com a tal frase do poeta “é por dentro que as coisas são”.

Quantas vezes sinto que ficamos no superficial e não nos preocupamos em descobrir o profundo que há nos outros. Gastamos tanto tempo e energia a criar juízos de valor com base naquilo que é exterior. Não aprofundamos, não descobrimos a raiz, a causa, o centro dos problemas. Ficamos pela rama e julgamos “por fora” sem nos colocarmos nos “pés” dos outros e sem “sofrer o que eles sofrem”. Para chegar ao verdadeiro e para os podermos compreender, há que que descobrir o que “está lá dentro”.

Não podemos apenas atuar por fora. É fundamental começar por dentro.

É por fora que as coisas se mostram, mas de fato, é “por dentro que as coisas são”!