A canonização vivida em São Pedro

Chegar a Roma por estes dias, em vésperas da canonização de dois Papas que marcaram indelevelmente a história da Igreja, é absolutamente esmagador. Milhares e milhares de peregrinos, de todas as partes do mundo, chegam para testemunhar, in loco, um acontecimento histórico. Muito por causa de João Paulo II, os polacos são a maioria. O Notícias de Setúbal viveu este momento, ao lado dos fiéis.

Em Roma, todos querem chegar cedo à Praça de São Pedro para garantir o melhor e mais próximo lugar junto do altar onde tudo irá acontecer: o dia em que dois Papas, Francisco e Bento XVI, canonizam dois Papas, João XXIII e João Paulo II. E assim é. Logo desde o meio dia de Sábado, 26 de Abril, ouvem-se testemunhos de peregrinos, alguns portugueses, que por ali foram ficando. A grande massa começa a chegar à Praça ao final do dia de Sábado e vêm dispostos a pernoitar.

Anoitece. Com a Praça de São Pedro já fechada, a Via della Conciliazione, avenida principal que liga Roma ao Vaticano, vai-se enchendo de fiéis. São muitos. Imensos. Milhares, a perder de vista. Uns rezam, outros cantam, outros descansam. Cria-se um ambiente de comunhão inexplicável com todos os que por ali estão e espera-se. Já perto da meia-noite, chegam notícias de que há peregrinos muito para lá da Via della Conciliazione. Abrem-se os portões intermédios para que possam ir avançando.

A partir desta altura, há momentos de tensão inevitáveis. O grande aglomerado de pessoas num espaço apertado assim o proporciona. A informação que chega por parte dos voluntários é de que as portas de São Pedro só abrem às cinco horas da manhã. E passam-se mais de cinco horas duras, difíceis, em pé, sem dormir. Jovens, idosos, crianças, famílias. Todos esperam.

Entretanto, o dia amanhece cinzento em São Pedro. Abrem-se os portões. Os peregrinos começam a entrar a conta-gotas e, à medida que se vai avançando, o coração bate mais depressa apesar das dores e cansaço provocadas pelas duras horas anteriores. Entramos, enfim. Procura-se um lugar o mais próximo possível da esplanada da Praça, onde a vista possa alcançar os Papas. Paramos. Sentamos. Esperamos. Espreitam lágrimas no canto do olho e o coração rebenta de gratidão por aquele momento.

Dois novos santos

A Praça de São Pedro vai enchendo. Mais tarde, sabemos que muitos dos peregrinos oriundos de Setúbal acabou por não conseguir entrar. São quase oito e trinta da manhã e começam a chegar os Cardeais, Bispos e Padres que vão concelebrar, bem como os vários Chefes de Estado e outras enti- dades civis e religiosas.

Eis que já mais perto do início da Eucaristia entra o Papa Emérito, Bento XVI. Uma imensa salva de palmas varre a Praça de São Pedro. É o Papa da humildade e da grandeza de coração. O Povo reconhece-o. Tão discretamente quanto possível, toma o seu lugar junto dos Cardeais e Bispos à esquerda da esplanada.

Às dez da manhã de Roma, menos uma hora em Portugal, entra todo o cortejo litúrgico e o Papa Francisco, que cumprimenta, ternamente, Bento XVI. O abraço entre os dois é belíssimo de testemunhar. Nova salva de palmas ecoa em São Pedro. Começa a cerimónia e a chuva começa a cair. O rito da canonização ocorre logo no início da Eucaristia. O prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, Cardeal Angelo Amato pede ao Papa Francisco que os beatos João XXIII e João Paulo II sejam inscritos no álbum dos santos. Francisco responde positivamente.

A Igreja tem agora dois novos santos, dois intercessores, dois modelos de vida que podem ser venerados pelos fiéis. Uma nova e gigantesca salva de palmas ultrapassa as portas de São Pedro, estende-se por toda a Via della Conciliazione e além dela. Há milhares e milhares de peregrinos espalhados por toda a cidade de Roma que não conseguiram chegar à Praça e que se detiveram diante dos inúmeros écrans gigantes. A Igreja terrena e, certamente, a Igreja celeste, estão em festa. Abrem-se raios de sol e a chuva para de cair.

Docilidade e Família no centro

As relíquias dos novos santos são levadas ao altar e incensadas. De João Paulo II, um pequeno frasco de sangue levado pela costa-riquenha Floribeth Mora Díaz, curada pela intercessão do Papa polaco após a sua beatificação. De João XXIII um pedaço de pele retirado aquando da sua exumação em 2000, levado por alguns dos seus familiares.

Na homília, o Papa Francisco realça a importância dos dois novos santos e de como fizeram avançar e crescer a Igreja. João XXIII através da convocação do Concílio Vaticano II, e João Paulo II, como responsável pela sua implementação num dos pontificados mais longos da História. Recorda o primeiro como o Papa da docilidade ao Espírito Santo e o segundo, que será o patrono das próximas Jornadas Mundiais da Juventude, como o Papa da Família.

Termina a Eucaristia. O ambiente de ação de alegria e ação de graças é transbordante. Aguardamos, pacientemente, que o Papa Francisco, depois dos cumprimentos a todas as entidades oficiais representadas na cerimónia, entre no papamóvel e passe pelos peregrinos na Praça de São Pedro. Assim o faz para júbilo de todos. Não há cansaço nem dores.

Com a rádio ligada, ouvimos os jornalistas italianos dizer que Francisco não sairá da Praça porque não estariam garantidas as condições de segurança para tal. A verdade, é que o Papa quebra uma vez mais o «protocolo» e avança, pela primeira vez em carro aberto, até ao final da Via della Conciliazione para saudar os milhares de peregrinos ali presentes.

Tempo de deixar o Vaticano e regressar a casa. À medida que nos afastamos da Praça de São Pedro, nós e todos os outros peregrinos, vai crescendo o silêncio ansioso pelo descanso, mas também o silêncio de um coração jubiloso, orante e agradecido. Quatro Papas e a Igreja em festa.

In Notícias de Setúbal, 2 de Maio de 2014.