«Nabonga»

Ana Lúcia Agostinho

Foi no dia 16 de julho que parti em missão rumo a Inharrime, Moçambique. Levava uma mala bem pesada com os contributos de muita gente que quis fazer chegar a sua generosidade às crianças apoiadas pelo Centro Laura Vicuña. Não fazia ideia do que iria encontrar, nem imaginava como seriam as pessoas me esperavam no meu destino. Sabia apenas que teria de confiar nos caminhos do Senhor, como diz o salmo que me acompanhou nos tempos de preparação: “O Senhor é meu pastor, nada me falta.” (Sl 23).

De facto, nada me faltou… Creio até que recebi em demasia!

Imagino que o que leva a maioria das pessoas a partir em missão é o desejo de dar a vida pelos outros, de servir o Senhor naqueles que mais sofrem. Pelo menos era essa a minha vontade: dar o máximo de mim, naquelas poucas semanas que estaria em Inharrime.

Mas, sabes aquela frase cliché “Recebi bem mais do que entreguei”? Gostava de te poder dizer algo mais original, mas não me ocorre nada mais real!

Assim que cheguei a Inharrime, fui “atacada” pelos mimos e a alegria contagiante das meninas do orfanato e pelo carinho das irmãs Filhas de Maria Auxiliadora que de tudo fizeram para me sentir em casa. “Esta é a tua casa, a casa que a tua comunidade ajudou a construir!” foram as primeiras palavras da Ir. Lucília Teixeira quando atravessámos o portão do centro. E em casa me senti desde o primeiro instante.

Ana Lúcia e a Ir. Lucília

Ana Lúcia e a Ir. Lucília

Não falo apenas das meninas e das Irmãs, sem esquecer o testemunho de entrega dos voluntários que lá encontrei. Falo também das famílias e das comunidades que tive o privilégio de conhecer. Gente simples que do nada que tem, tudo dá e põe em comunhão.

No dia 29 de julho, pude acompanhar a Ir. Aida numa missão pastoral a uma jovem comunidade, numa terra (ainda) sem nome. A comunidade reunia-se numa casa sem porta nem janelas, construída com folhas de coqueiro e telhado de chapa, os bancos eram troncos, muito baixinhos. Cá fora via-se um empilhado de blocos de cimento que, pouco a pouco, a comunidade ia juntando para construir a sua igreja.

As pessoas iam chegando, depois de terem percorrido longos quilómetros a pé. Uns traziam as flores, outros os instrumentos de percussão e, outros ainda, as toalhas e as capulanas para os acólitos e para as crianças. Cada um entregava os dons que tinha e o que sabia, tudo para que a comunidade pudesse viver com a maior das alegrias a Celebração da Palavra. Nesse dia, o evangelho de S. João falava-nos do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes (Jo 6, 1-15). Apesar de toda a celebração ter sido em chope (dialeto local), creio que nunca o compreendi tão bem. Aliás, senti-me a viver esse milagre!

Comunidade Católica

Comunidade Católica

Com estas pessoas aprendi que o Senhor não nos pede muito: apenas que entreguemos tudo o que somos, toda a nossa vida que é tão pequena e frágil. Sem medo, porque Ele não no-la tira; devolve-nos a vida revestida de uma alegria inimaginável! Como diz a Ir. Lucília, “a vida é linda” se a soubermos viver assim. Como eu gostava de o aprender!

O meu trabalho por lá era apenas “doar o meu tempo”: apoiar as meninas na sua aprendizagem, brincar com elas, contar-lhes histórias, ouvi-las e dar-lhes atenção. Tão simples, que até parece ridículo chamar-lhe “trabalho”. E este foi um tempo maravilhoso, dos melhores da vida!

Apoio ao estudo

Apoio ao estudo

Em Inharrime, pude testemunhar através da obra das Irmãs, como Deus age nas pequenas coisas e as transforma em tão grandes. Em 2005, as Irmãs iniciaram ali a sua missão, partindo do zero. Movidas pelo grito dos mais pobres e guiadas pelo amor e uma enorme confiança na providência divina, as Irmãs têm sido as mãos e o coração do Senhor na construção de uma obra que maravilha todos os que por lá passam. Hoje, o Centro Laura Vicuña apoia 70 meninas órfãs em internato e 50 meninas em semi-internato provenientes de famílias muito pobres; tem ainda uma escola pública com cerca de 2500 alunos; dedica-se à formação profissional dos jovens; e apoia o desenvolvimento da população local.

É grande e belo o que por lá se tem edificado. Contudo, todas as mãos fazem falta, porque muito há a fazer. E acredita que os 12 mil quilómetros de distância não são impedimento para trabalhar nesta vinha do Senhor!

Se quiseres, também tu podes ajudar. Sabe como em: www.amigosinharrime.pt.

De volta a Portugal, trago as malas bem mais vazias. Já o coração vem a abarrotar com os dons que do Senhor recebi no meio desta minha nova família, muita vontade de lá voltar e com uma palavra a ecoar: nabonga, obrigado!

Ana Lúcia Agostinho